21 agosto 2009

Coisa de Gordo - 442


442 – Eram anos longínquos aqueles. No país, imperava a ditadura militar e não se sabia que o filho do presidente da República tivesse enriquecido subitamente. O Sarney já existia, caro(a) leitor(a), e já tinha por hábito apropriar-se do alheio. A diferença é que o presidente não o defendia com unhas e dentes.
Em nível estadual, não terei muitos detalhes na lembrança, posto que morava fora daqui, mas sei que eram anos de domínio do Internacional sobre seu rival Grêmio, os campeonatos estaduais vinham sendo ganhos pelo time colorado. Faltava um ano para a Copa do Mundo da Alemanha, estávamos, portanto, em 1973. Sei, sei , algum leitor por certo nem havia nascido.
Havia casos de corrupção aqui no Estado, isso é óbvio, mas nem de longe se aproximavam desse enorme rolo do Detran, da casa da governadora, eram casinhos quase que amadorísticos que não alteravam a ordem natural das coisas.
Morávamos na cidade de Castro, interior do Paraná, perto de Ponta Grossa.
Era e creio que ainda é uma pequena comunidade interiorana. Lembro de detalhes inusitados. O telefone de nossa casa tinha TRÊS dígitos e o aparelho de telefone não tinha números. A gente apenas levantava o telefone do gancho e uma telefonista atendia, solicitando o número. Isso significa que em toda a cidade havia no máximo mil telefones. Por aí você já pode ir compondo o cenário.
Nos fins de semana caminhávamos com nosso Pai até os arredores da cidade, brincando com nossa cachorra ADA, pastora alemã, que corria pelos campos verdes daquele entorno. Havia trilhos de trem cruzando a periferia, e o movimento era intenso. Certa feita passava uma composição puxada por duas locomotivas e empurrada por uma terceira, e nunca esquecerei do número de vagões. Ficamos parados ao lado dos trilhos, esperando para poder atravessar, e contei 42 vagões de carga! Imagino que devam haver composições maiores e mais possantes do que essa, mas na minha cabeça infantil aquilo foi quase que um trauma, um referencial de tamanho. Sempre tive esse número como um paradigma de valor, vida afora. Nas nossas caminhadas, pairava no ar um cheiro de café torrado, pois havia por perto uma espécie de torrefação, uma pequena fábrica, imagino eu, onde se fazia café em pó.
Estudava eu no Colégio São José, um colégio de freiras, e cursava a quarta série do primário.
Dentro de minha pequena inocência, entre uma fatia de pão com manteiga e outra, eu era aluno dedicado aos estudos, tanto que jamais houvera causado problema aos meus pais nesse sentido.
Nesse contexto todo, aconteceu algo que me acompanharia vida afora.
Vim fazendo o primeiro bimestre normalmente até que vieram as primeiras notas. Meu boletim veio reluzente, cheio de notas 9,0 e 10,0. Mas fiquei estarrecido ao ver uma coisa. Na matéria de Educação Moral e Cívica veio uma nota 6,0 !! Além do choque pela nota em si, descobri outra coisa. Por causa daquela nota, eu não fazia jus a uma estrela dourada que era dada como prêmio aos alunos que tivessem apenas notas boas. Ali, logo abaixo das notas, a estrela dourada era aposta e servia como estímulo aos que a conquistavam e castigo aos que dela se afastavam.
Fui interrogar a freira que dava a matéria acerca daquela nota e também saber da estrela. Ela me explicou isso que coloquei até aqui e disse-me que eu apenas fora brindando com aquele 6,0 por não ter entregue um determinado trabalho. Achei estranho aquilo, não era de fazer tais coisas, mas naquele tempo não se discutia com professor e muito menos ainda se fosse uma freira. Por quase nada a gente era jogado no fogo do inferno. Muito mansamente, ponderei com a tal freira se não havia nada que eu fizesse para recuperar aquela nota e ela então disse que bastava fazer o trabalho.
Aliviado, fui para casa e me pus a executar o trabalho. No dia seguinte, certo de que aumentaria minha nota e mais certo ainda de que obteria minha estrela, estava com o trabalho em mãos e pronto para ser entregue. Entreguei a ela e esperei os dias seguintes. Nada mudou. Fui perguntar-lhe o que estava havendo e então ela me disse que a nota não mudaria, já tinha sido dada, que elas não voltavam atrás, que eu NÃO TERIA MINHA ESTRELA, cacete! Mas que gordinho chato – ela deve ter pensado!
A freira mentira para mim! Me enganara. Me fizera redigir todo um trabalho, depositara em meu pequenino coração a esperança de ver luzir uma estrela em meu horizonte, mas sabendo o tempo todo que a nota não mudaria e a estrela não viria. Ela conseguiu matar ali, no alvorecer de meus dez anos, a primeira de muitas ilusões que viriam a morrer a partir dali.
Esse episódio gravou em meu imaginário uma mensagem negativa e por vezes errada: - Freiras mentem! Carreguei isso pela minha vida afora: Freiras mentem! O que foi uma completa distorção.
Lá mesmo naquele colégio tive a chance de fazer outras descobertas sobre irmãs católicas. A diretora da escola era um trator , uma freira chamada Irmã Nelsa (pronunciavam NEUSA) Pellanda. Era um mulher dura, cruel, vi saírem de seus olhos faíscas de ódio que nunca mais vi pela minha vida afora. E, no entanto, tinha a Irmã Apoline, nossa professora de português, que me ensinou a conjugar verbos como mais ninguém o fez, ensinamentos que trago até hoje. Era uma pessoa calma, serena, pacífica. Tinha a Irmã Angelita, que nos dava aula da Religião, e que igualmente era um doce de pessoa, exemplo de conduta para qualquer pessoa. Enfim, as pobres irmãs apenas refletiam o que se via do lado de fora dos conventos. Eram uma fração da comunidade, com elementos bons e ruins. Nem anjos. Nem demônios.
O episódio da estrela no boletim me alertou para a vida que ali se ensaiava, o mundo real. Pela estrada afora, eventualmente me deparei com promessas não cumpridas, com malícia, com malevolência. E sempre me reportei ao episódio do boletim, pensando intimanente: - Eu já passei por isso, eu já sabia que podia ser assim.
Para fechar o relato, nos bimestres seguintes obtive as tais estrelas sem dificuldade. Veja na foto ao lado a aparência delas. Mas perceba ali ao lado delas, aquele vazio, aquela mácula, aquela ausência estelar. Parece que essa me ensinou mais e reluziu mais com o passar dos anos. Média final de aprovação: 9,2 ! Mas bah, guri véio! Que notão!
Silvano – nostálgico

CLIQUE NA IMAGEM..
e perceba os detalhes do boletim, as notas, lá embaixo as assinaturas de duas freiras, uma boa e outra ruim. E examine as estrelas...ah, as estrelas...
21/08/2009

2 comentários:

Liliam disse...

Oi Dr. Silvano

Teu relato me fez viajar a uma época que não vivi...hehe....mas que foi mt interessante.
parabéns pela descrição, pelos detalhes.....rí muito com a história da Freira e com a constatação de que as freiras também mentem....
Um abraço!

Rosalva disse...

Eu tb viajei ... viajei muito. A tua cabeça é brilhante mesmo. Bjs, Rosalva