03 abril 2008

Coisa de Gordo - 370


370 – A COMIDA DA CRISE
Vez que outra conversava com a turma, em casa, acerca de um tipo de comida que consumíamos na infância. É um tipo de comida que eu denomino A COMIDA DA CRISE. Sim, os tempos eram outros, vivia-se em piores condições e, resultado disso, a comida era diferente.
Só para ilustrar isso deixei as crianças intrigadas, um dia, quando comentei que fui conhecer os frios, essa variedade de queijos e mortadelas que enriquecem nossas refeições, apenas no entrar da adolescência. Eles ficaram intrigados. Como é que pode? Pois podia. Comentei que em nossas infâncias o café da noite era mais simples. O que não quer dizer que se passasse fome, nada disso. Comia-se muito bem. Mas comiam-se menos coisas.
Lembro que se bebia leite quente, no bule, e que se fazia necessária a presença de uma coisa chamada coador. Ao se ferver o leite (naquele tempo se fervia o leite), surgia em sua superfície a nata, a gordura do leite que ninguém queria beber. Para tanto, o leite era despejado nas xícaras através do citado coador. Em algumas casas de avós, a nata recolhida era separada num pote, para depois virar manteiga ou então bolachinha de nata. Coisa que Avós sabiam fazer.
Ato contínuo, colocávamos Nescafé e açúcar, ou então Nescau e açúcar. Essa era a bebida. E para acompanhar comia-se pão d’água (de meio ou de quarto), devidamente fatiado e temperado apenas com margarina. Ou manteiga. Isso era o café da noite. Às vezes variava-se com uma geléia. E só.
Sentando olhos no almoço, recordo de uma série de recursos que nossa mãe usava para nos alimentar naqueles longínquos dias. O guisado. Num dia era guisado com batata. Noutro dia, guisado com milho. Dia seguinte, guisado com ervilha. A isso se somavam arroz e feijão e estava feito o banquete. Daqueles tempos.
Outro recurso era o suflê. Num dia suflê de milho verde. Noutro dia suflê de outro sabor. Gostoso e barato.
Comentei isso em casa dia desses, citei a expressão “Comida da Crise”, e brinquei com eles que ia fazer um Guisado com Batata para matar a saudade. Os ânimos se eriçaram, a curiosidade aumentou, fizemos o tal prato. A turma adorou e viciou. Temos repetido eventualmente. Hoje me dei ao luxo de deixar a água secar na panela e o guisado ficar com um setor de “queimadinhos”. Quase deu briga na hora da mesa. De tão bom que ficou!
Voltando mais uma geração no tempo, lembro de minha Avó materna tomando café preto engrossado com farinha de mandioca. Sabe que era gostoso? Um verdadeiro pirão. Mas era barato e gostoso. Eram tempos de pobreza, os da Vó, e imagino que este fosse um recurso considerável.
Eu e a sra Kátia temos em nossa trajetória matrimonial a “Semana do Ovo”. Recém-casados, o salário da residência ainda ia demorar uns dias, tomamos de uma ou duas dúzias de ovos e passamos a semana. Num dia ovo cozido, noutro dia ovo frito, no terceiro omelete, assim fomos respirando curto até o salário chegar.
Bom, já lancei a moda, agora é só ir testando em casa. Comida da Crise. Vou fazê-los comer Guisadinho com Couve, depois Guisadinho com Repolho, deixar ver, tem ainda Beterraba...ih, a lista é interminável. Gostosa. E barata.
Silvano – pão duro


03/04/2008

1 comentários:

Cássia Baby disse...

Ah, Silvano, um guisadinho torradinho no fundo da panela, e omelete feita com aquelas duas últimas fatias de frios da geladeira (apenas um fio de azeite de oliva, afinal os tempos são outros) têm mesmo seu valor. Tu tens razão e está de parabéns pela saudosa lebrança.
Cássia - Sto Ant. Patrulha