03 abril 2009

Coisa de Gordo - 422


422 – BIOGRAFIA
Por uma dessas coisas inusitadas da vida, foi-me pedida uma biografia. Calma, já explico. Em parceria com um amigo meu de Espiritismo, estamos alinhavando a publicação de um livro. Na esteira desse processo (cacoete meu de linguagem a tal da esteira e o tal do processo), a gente tem que ver um monte de coisinhas, detalhes que vão surgindo aqui e ali. Uma dessas coisas é a orelha do livro.
A orelha do livro é aquele apêndice, aquela sobra de papel que você vai usar como marcador de página. É um espaço curto, exíguo, e ainda por cima com uma pequena foto.
E aí começou minha agonia. Uma foto e uma biografia. Minhas!
Não gosto de ser fotografado, não fico bem em fotos, e tal se dá por motivos óbvios. A gente não gosta de expor os excessos, o que sobra. Então é melhor que não se vejam certas coisas. Mas a tal orelha do suposto livro faz jus a uma foto. Então tive que desencavar, buscar, desenterrar uma foto e já enviei à diagramadora.
Restou a biografia. Imagine você fazer uma autobiografia. Num curto espaço, são apenas seis ou oito linhas dum A4 no Word. Nada mais. Você tem que ser sucinto, claro e objetivo.
Passei a perder o sono com isso. O que colocar na tal biografia? E o que omitir?
O que foram fatos determinantes para que eu chegasse ali, na orelha de um livro? O que poderia interessar ao público leitor?
Sendo um livro com viés espírita, algumas coisas dessa caminhada teriam que ser relacionadas.
Uma coisa me pareceu clara. Uma vida resumida num espaço tão pequeno vai ser apenas um espectro, um reflexo, uma pequena ilusão do que foi na verdade uma vida. E também há que se considerar outra coisa. Os editores imaginavam que isso iria acontecer e para evitar que o autor escrevesse outro livro com a sua biografia determinaram esse limite de espaço. Uma orelha!
E tem mais. Que grandes coisas aconteceram na minha vida que valessem a pena ser contadas e impressas? Muito poucas, muito poucas. Na verdade trata-se, caro(a) leitor(a), de uma vidinha comum, normal, destituída de grandes arroubos e tempestades. Os fatos por mim vividos só a mim impressionam e, por certo, seriam enfadonhos aos olhos de um público maior.
O que colocar na biografia? – meu Deus que agonia (até rimou).
Acabei pedindo ajuda a minha Mãe que então redigiu uma sucinta biografia. No material que enviei para a orelha tive que suprimir certas coisas que só mãe vê e colocar umas que ela não tinha como saber.
Fiquei então imaginando que, na verdade, cada pessoa possui VÁRIAS biografias. Tudo depende do público que vai ler. Se se vai escrever para fiéis católicos, a gente só vai falar de missas e hóstias. Passando de leve pelas lembranças do colégio de freiras, as irmãs bondosas, as irmãs cruéis e as irmãs gostosas (não lembro de nenhuma assim).
Se o público alvo é de futebol, as narrativas vão girar em torno de campeonatos, taças, pênaltis não marcados, Copas do Mundo e coisas de vestiário.
Se o alvo forem advogados, o texto fluirá por entre mandados e petições, recursos e alvarás. Não esquecendo de juízes e promotores.
Assim, ouso ensaiar uma biografia para os leitores do COISA DE GORDO: nascido no interior gaúcho, em meio às coxilhas do Pampa e às mantas de charque de ovelha, o pequeno Silvano (será que era?) logo disse a que veio. Mamava insistentemente dia e noite. Nos meses seguintes degustou de tudo que lhe ofereceram, chegando ao extremo de ser arrancado à força da cozinha, com os dentes recém surgidos cravados numa lingüiça temperada. Nos anos tenros de sua infância foi apresentado àquele que seria seu companheiro de caminhada, seu peito amigo, sua “cachaça”, sim ele conheceu o LEITE CONDENSADO. Na juventude descobriu novos sabores, momento em que adquiriu um vício eterno: - comer limão com sal. Passa os dias entre receitas de culinária e temperos. Fã incondicional de Coca-Light, permite-se degustar outras bebidas mas sempre volta à fonte. Para a população mundial, um exemplo de desperdício. Para os psiquiatras, um caso perdido. Para os amigos, o impossível. Impossível de agüentar, impossível de convidar, impossível de conviver.
É, talvez seja isso. Há certas fantasias e pequenos exageros no texto aí de cima. Mas há muito de verdade. Descubra por você mesmo o que é um e o que é outro.
Silvano – imbiografável


BIOGRAFIA
O que colocar numa biografia?
Meu Deus,é difícil, que agonia...
Falo das frestas, das festas enfim
Das coisas do dia. O bom e o ruim.

Conto a infância, o nascer e o crescer,
As idéias, as gafes, a minha impaciência.
Os amores sofridos de quase morrer,
Os fatos vividos na adolescência.

Destilarei sem temor minhas raivas e iras
Meus ódios e mágoas e todos meus medos.
Uma a uma...virão as mentiras
Mazelas antigas e os torpes segredos.

Como falar de uma pessoa assim?
Sem escorregar nos extremos cruéis?
É muito difícil falar sobre mim.
O que são os dedos e o que são anéis?

Diante da dúvida peço uma ajuda
Por não conseguir descrever-me a ti.
E roubo as palavras de Pablo Neruda
Dizendo então: - Confesso que vivi!


03/04/2009

4 comentários:

Liliam disse...

Olá Dr. Silvano

Gostei muito de ler a postagem desta semana e venho aqui fazer uma confissão: peguei emprestado seu poema Biografia, para colocar no meu Perfil do Orkut (Óbviamente com as devidas referências). Não, não me apropriei de suas palavras, sem que lhe desse os devidos créditos, embora percebesse o quanto se assemelha com minha própria descrição tais palavras e versos!

Aida Staszak disse...

Tenho certeza que também teria dificuldades de falar sobre mim. Ás vezes, espetacularmente gentil, dócil, leal e em outras situações nem eu mesma me conheço. Sob o ângulo do Espiritismo, procuro acreditar que saldo algumas pendências e contraio outras tantas, mas, afinal, sou humana, consciente e lá no "fundinho" busco acertar.

Anônimo disse...

Amigo Silvano, só faltou um detalhe na tua biografia... isto ficará por minha conta... UMA PESSOA ESPIRITUOSA, CRIATIVA E EXCELENTE AMIGO!
È isso aí!
Bjos Sonia

Anônimo disse...

Meu comentário ficou como anônimo, mas sou eu Sonia Schebela