10 julho 2009

Coisa de Gordo - 436



436 – LER E LER
No local de trabalho, entre uma coisa e outra, parei um minutinho para conversar com um outro Leitor. Leitor de coisas impressas no papel. Sim, nós os leitores antigos, aqueles que ainda se valem de papel para ler, somos uma espécie em extinção.
Sim, é óbvio que também lemos as coisas na tela do computador, isso quase todo mundo faz. Mas além, disso nos entregamos a este deleite pré-histórico. Folhear páginas de livros. Revistas. Jornais. Tem gente no mundo que desconhece o prazer de se abrir um livro novo. O cheiro das páginas. As cores da capa. As orelhas, sim as orelhas.
Mas comentava que encontrei o outro Leitor e, naqueles breves momentos, nos entregamos ao alegre exercício de puxar pela memória.
Lembra desse trecho da Florbela?
“Minha alma de sonha-te anda perdida,
meus olhos andam cegos de te ver,
Não és sequer a razão do meu viver
Pois que tu és já toda minha vida.”
Claro, claro, ele atestou. E a partir daí passou a relembrar dados biográficos da Florbela Espanca, sua vida sofrida, suas tragédias, seus sofreres. Falou da morte do irmão dela. Do suicídio. Rebati comentando que ela ficara maldita diante da cultura portuguesa, para ser resgatada décadas mais tarde por outro poeta, José Régio.
O Leitor remexeu em outras gavetinhas de nossas memórias, falou de textos de outros portugueses, falou de alguns brasileiros, adentramos comentários sobre palestras, a arte da oratória. E assim, naqueles breves minutos, refrescamos nossas memórias com cultura geral.
Trago este pequeno recreio ao seu conhecimento porque ali, naquele ambiente em que estávamos, criamos uma espécie de ilha de saber. As pessoas ao nosso redor, seja por desconhecimento, seja pela sua juventude, seja por timidez, silenciaram e ficaram nos olhando, admiradas. Entre mim e o leitor abriu-se um espaço onde os outros não ousavam entrar.
Isso é assustador. Falar de uma que outra poesia, citar um que outro poeta português, deveria ser algo menos assustador. Menos ofensivo. Desconfie que alguma coisa está errada quando um sujeito normal como eu é tido por inteligente. Por intelectual. Desconfie que a coisa vai mal na cultura do país.
Se algo me diferencia do populacho em geral é apenas a coisa citada ali no início, isso de ler letras impressas em papel. Mas é só.
Essa noção do saber nacional talvez explique o que acontece em Brasília. O Sarney pode fazer o que quiser. Nunca será banido. O povo deve achar que ele é mais sabido, mais importante, mais poderoso. Mas deixemos o Sarney de lado.
As pessoas que lêem livros criam pequenos rituais, cacoetes, manias. Tem gente que rabisca todo o livro à medida que vai lendo. Sempre fiquei meio constrangido. Não era desse time. Mas o tempo amainou minhas reticências no que tange ao branco das páginas dos livros, e dei-me conta de que por vezes rabiscar era útil. Útil e íntimo.
Você se expõe no que escreve dentro de um livro. Tem ali um parágrafo arrasador e aí você puxa um colchete do lado e escreve bem grande: “Lindo. Colocar isso num cartão para a Rochele.” Anos depois, sua mulher abre o tal livro e a confusão está feita.
Via de regra eu apenas sublinho coisas que precisarei no futuro. Numa palestra. Num texto.
Tem quem leia livros no ônibus, na praça, no vaso sanitário. Não tenho preconceitos, mas via de regra, lascivamente, sempre que pude levei os livros para a cama.
Ali, no ambiente mais íntimo e pessoal, entreguei-me ao prazer de suas palavras. Permiti-me sentir o toque de suas páginas. Sentir o cheiro da encadernação. Ler as dedicatórias.
A leitura sempre progride bem, até que você chega num ponto em que lê um parágrafo e se perde. Recomeça o mesmo parágrafo. Se perde de novo. Na terceira tentativa....desista...está na hora de dormir. Falando nisso, vou prá cama e vou bem acompanhado. É um lançamento. Está nas páginas da Veja desta semana. Mas isso já é outra história...
Silvano – o impossível


COLEÇÃO DE ROLHAS
Todo enólogo que se preza tem uma taça gigante onde coleciona as rolhas dos vinhos que ele toma. São lembranças, troféus de que todo enólogo se orgulha. Meu amigo ROGERIÃO é pródigo em tal hábito, posto que faz uso medicinal de vinho tinto. Uma taça por dia para ter vida longa. Já me habituei a ver nas casas onde eventualmente ando a tal taça cheia de rolhas. Pois neste inverno comecei minha própria coleção. Não, não entendo de vinhos. Mas sei que é bom bebê-los. Até este momento só tenho as rolhas. Não tenho a tal taça grande em formato de vaso. Veja as poucas rolhas. Ali há de tudo um pouco. Perceba na foto que é uma pequena coleção. Mas repare bem ali naquela rolha deitada...sim...é um J.P. Chenet. Fazer o quê? Fui casar com uma italiana.... Só podia dar vinho bom. Francês. Mas bom.


10/07/2009

3 comentários:

Gary disse...

Fala "gordo".
Esse negocio de colecao de rolhas é relativo....depende do enfoque quequeres dar....a minha (que deve estar beirando as mil rolhas), eu determinei que guardaria só as que eu abrisse....e assim foi...tem que haver uma razao para a guarda das rolhas....
Te mando fotos delas um dia
Abracao
Betho Giordani

José Eduardo C disse...

Oi Silvano. Fazia tempo que não visitava o teu blog. Logo, cheguei em boa hora: livros. Adoro-os. Todo período que estive na faculdade, estive com minha cota de empréstimos sempre lotada. Por falar em manias, tenho dificuldade em ler dois livros ao mesmo tempo. E claro, não consigo parar senão no início de um novo capítulo.
Era isso. Parabéns pelo blog. Abraço
Obs. acho que só posso comentar com o login do blogger. Contudo não uso mais essa conta. Se quiseres aparecer no meu espaço virtual, fique a vontade: http://jcoutelle.wordpress.com/

Isa Ueda disse...
Este comentário foi removido pelo autor.