28 agosto 2007

Falando em fazer falta....


...esses tempos andei incomodando um amigo meu de colégio que mora em Portugal por causa de um escritor de terras d’além mar. Trata-se do maravilhoso JOSÉ RÉGIO, autor entre outras coisas do CÂNTICO NEGRO, aquela poesia que foi eternizada na voz da Maria Bethânia na entrada de uma de suas músicas ( “Vem por aqui, dizem-me alguns com olhos lassos...). O meu amigo procurou os livros, parece que até mesmo comprou, ia me mandar pelo correio. Pelo jeito, o navio que trazia os livros sucumbiu como o de Camões, a diferença é que Camões salvou o manuscrito dos Lusíadas das águas e os meus livros afundaram no Atlântico. Óbvio é que isso é uma presunção minha, posto que a encomenda não veio. Ontem recebi e-mail dele renovando um convite para que eu vá visitá-lo em Portugal. Lembrei da amizade, do encontro, mas é óbvio que lembrei dos livros. Quem sabe....se começo a jogar na megassena...ou me nomeiam assessor parlamentar....e eu vou até lá? Quem sabe?
Silvano – louco para viajar


E JÁ QUE FALEI NO CÂNTICO NEGRO.....
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

-- um poema de JOSÉ RÉGIO

1 comentários:

°º Manachicaº° disse...

Depois de uma amiga me mandar o cantico e ouvi-lo e me apaixonar.Pesquisando te achei.
Faço parte das tentativas poesias de juventude..(eu faço).
Ao me aproximar de tudo que passou, de todo chão, de dor, de toda senzala, de todo suor, de todo falar de maria, cheguei aqui pra falar com emoção da minha liberdade negra e da expressão.

aH, quem sabe
vou torcer..livros se salvam por si só ou fazem caminha para os peixes.Se eles não dormem vão descansar nas poesias além-mar.

beijo grande!

Lívia