15 janeiro 2008

Conto Curto de Verão


Fim-de-semana chegando, ele botou a família no carro e se dirigiu à praia, indo pela movimentada auto-estrada, a Free-way, até a praia de Tramandaí. No meio do caminho, aquela tranqueira enorme, os carros engarrafando, ele conseguiu chegar até o pedágio. A fila de carros andava lentamente, o calor no asfalto era insuportável. Por estar trancado no trânsito, olhou para o lado e teve sua atenção chamada para um carro preto onde um casal esbravejava. Verdadeira briga de casal. A mulher dava de dedo na cara do homem, ao que ele rosnava impropérios e o carro andava um pouquinho. A curiosidade o fez desligar o ar-condicionado e baixar o vidro um pouquinho para ver se conseguia escutar as falas do exaltado casal. O homem gritou: - Eu já agüentei tudo, tudo, TUDO, poxa vida....mas isso foi demais! E logo com o Júlio! Com o Júlio.
A fila andou, ele avançou um pouquinho, mas o carro preto também avançou e então se ouviu a voz da mulher: - Esta foi a última vez que tu encostou em mim. A ÚLTIMA. Pode escrever. Tu não volta da praia comigo. Tu não vai voltar. Pra ti, é uma viagem só de ida.
A mulher disse isso e verteu a cabeça para o lado, dando de cara com o curioso motorista ao seu lado. Naqueles microssegundos os dois trocaram os olhares, ele meio assustado, a mulher meio envergonhada. Chegou ao pedágio, pagou e se mandou.
Três dias depois ele estava na beira da praia, ouviu uns gritos, uma certa correria, era mais um salvamento dos salva-vidas. Admirado viu a mulher, a mesma mulher do carro preto, de biquíni, saindo da água em prantos, apoiada por um dos salva-vidas. Dentro do mar, o homem que ele vira dias antes brigando com ela dentro do carro, sumia e aparecia dentro das ondas.
Os salva-vidas bem que tentaram, mas o cara sumiu de vez na água.
A mulher chorava, o povo se aglomerava, a confusão estava formada. Aquele pequeno cortejo veio se aproximando, as pessoas comovidas abrindo caminho na areia, até que passaram ao lado dele. Repetindo a cena da estrada, a mulher verteu a cabeça e bateu com o olhar pasmado dele. Num microssegundo, sempre num microssegundo, ela transfigurou suas feições e disse para apenas ele escutar: - Eu avisei que ele não ia voltar!
Caminhou e voltou a chorar.
Ele ficou na beira da praia até o anoitecer, tentando romper a barreira de medo, susto, pavor e covardia que o segurava ali, olhando o mar.
Silvano

3 comentários:

Mirian disse...

Oi Silvano, parabéns pelo conto!!!!! Muito bem escrito, enxuto, como convém a um conto, e denso a partir do momento do desabafo do homem "logo com o Julio!"
Esta frase do homem, remete o leitor à traição , adultério ... que, supostamente, a mulher teria cometido . A resposta dela soa, a princípio, com raiva, como vingança..."Tu não volta comigo!" Uma reação normal de quem havia levado uns tapas do companheiro de viagem.
Mas o sentido de suas palavras muda, quando ela diz : " Prá ti é uma viagem só de ida .."
Neste momento, suas palavras soam como uma sentença !!!!!!! Ela o condena à morte !!!
No instante final, quando seu olhar se cruza novamente com o olhar do narrador , ela murmura para que só ele ouça : "Eu avisei que ele não voltaria."
E, assim, de maneira diabólica, ela o torna irremediavelmente seu cúmplice !!!!!
Como não sentir medo, susto, pavor e covardia ??????
Magnífico conto ! Parabéns !!!!

Tadeu disse...

...Cara, que coisa bem escrita...objetividade na medida, vivaz, crível- e muito gostoso!

Viviane disse...

Gostei tanto que vou levar para meus alunos anlizarem.
Parabéns!