22 fevereiro 2007

Coisa de Gordo - 312


312 – PECADOS DA GULA
Não, amigo(a), não pense que estarei aqui falando dos Pecados Capitais, dentre eles o da gula. Hoje vamos discorrer sobre pequenos (mas definitivos) pecados que são cometidos ali, diante das panelas, na cozinha, na churrasqueira. E que por vezes botam a perder toda uma refeição.
Trago esse tosco assunto ao debate após ter simplesmente trucidado com um Arroz com Lingüiça. Era para ser um delicioso almoço, o dia era de semana, as condições estavam todas favoráveis. Empregada? Não estava! Crianças? No colégio. A mulher? Teve que sair. Só sobrei eu! Pronto, fiquei responsável pelo almoço. O que farei?
Para não desperdiçar a chance, ataquei de Arroz com Lingüiça, uma espécie de especialidade minha. Calma, não se iluda, sou um reles cozinheiro de ocasião. Quando digo especialidade é porque se trata de uma das poucas coisas que me arrisco a fazer. Pois lá estava eu.Comprei a “lingüiça”, na verdade duas embalagens de “salsichão”, separei uma Panela de Barro que nosso amigos Wânia e Leandro, da Pousada Habitat Marinho, nos ensinaram a usar. Peguei de uma pacote de Arroz Arbóreo, que é um arroz todo especial, usado para risotos e outras especialidades. Ou seja, os elementos estavam todos ali, era para dar certo. Mas não deu!
Coloquei a panela no fogo com alguma antecedência, panelas de barro demoram mais a aquecer. Depois o azeite, a cebola picada, as lasquinhas de alho. Enquanto isso ia curtindo, ebulindo, tratei de cortar a lingüiça em pequenas rodelas, estreitas, mais facilmente cozinháveis. Na hora aprazada, entraram as lingüiças na panela, como que querendo se associar aos outros ingredientes que ali festejavam. Sim, aquilo me lembrou um salão de baile de carnaval! Circular, quente,abafado e para alguns, saboroso! A manhã avançava, daí a pouco as pessoas começariam a chegar, lancei mão do arroz. Colocado no salão, digo panela, o arroz entrou como se fosse um Rei Momo. Alvo, numeroso, volumoso, sentia-se o centro das atenções. Colocadas as xícaras de água para que iniciasse a fervura, faltava apenas uma coisa. O sal!
Veja que até aqui tudo se deu perfeitamente, a harmonia, a ordem do desfile, o ritmo, o enredo perfeito, era para ter sido um prato campeão de carnaval. Mas errei no sal! Pus uma quantia de sal refinado, mas o pote esvaziou antes do que eu queria. Vai ficar sem sal – pensei! Vasculhando a despensa, encontrei pequeno saco de Sal Grosso, resquício de algum churrasco, e decidi usar um pouquinho dele. Amigo(a), não sei se foi essa porção que estragou todo o resto, não sei se a lingüiça é que era salgada e eu não sabia, não sei, não sei o que se deu.
O “povo” chegou da rua,fiz aquela show todo com a panela de barro, o visual estava lindo. Até que comemos o troço. Sim, aquilo podia ser chamado de troço. Ficou salgado, salgado, muito salgado! Estraguei o baile, baguncei o coreto, atravessei o samba que até então vinha em perfeita harmonia. Salguei o arroz. Tivemos que lançar mão de uma bolacha d’ água, a mulher até desencavou um feijão de dia anterior, na tentativa de salvar a pátria. Salguei o arroz! Irremediavelmente, salguei o arroz. Os deuses da culinária me deram toda a chance, criaram um ambiente favorável, criaram espaço e tempo para que eu pudesse trabalhar naquele prato...mas eu salguei o arroz.
Sem mais rodeios, ficarei suspenso de minhas atividades culinárias por algum tempo, de quarentena, não se preocupe, portanto, a coisa tende a melhorar. Para terminar:
Era prá ser delícia,
Um prato fenomenal.
Mas na hora faltou malícia,
No arroz pus muito sal!

Silvano – salgado




LEITOR ATENTO
Enviei uma foto de um carro de auto-escola de Piracicaba, onde se lia atrás “Mantenha Lonjura”. Nosso atento leitor Waldemar, de Porto Alegre, escarafunchou no dicionário e me mandou email dizendo que sim, a palavra lonjura pode ser usada, com o significado de distância. Diz ele: Silvano, fui olhar no dicionário Caldas Aulete se existe a palavra LONJURA. Lá consta : LONJURA , s.f. (pop) grande distância, longura !! Deve ser um termo usado em Piracicaba! Sei lá. Um abraço. Waldemar


22/02/2007

1 comentários:

cassia disse...

Salgadíssimo Amigo Silvano:
Também tenho me aventurado pelas panelas, e o arroz com lingüiça - famoso "arroz de china pobre" -, que no teu caso tava caprichado!, realmente não combina com sal. E nem foi o sal grosso. Aquele pouquinho que tu tinhas no pote já foi pra lá de suficiente. Algumas vezes, nem é necessário. Mas tua receita parecia deliciosa!!!
Abraços e um bom final de semana.
Cássia